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Marqueteiro não é analista político

   
   

DUDA MENDONÇA

 

*Duda Mendonça

Tem uma coisa perigosa na prática, no dia-a-dia do marqueteiro, numa campanha política. É quando sobe à cabeça dele a vaidade, geralmente provocada pela proximidade com o poder, com os fatos relevantes da vida do país, da cidade, do município. Aí ele começa a se achar mais importante do que o candidato. Começa a se achar mais informado sobre a conduta política do candidato, do que o próprio candidato. Começa a ditar regras políticas para o candidato. Se bobear ele vai querer governar, também, se vencer a eleição.

É bom parar!
Candidato é candidato. Marqueteiro é marqueteiro. Analista político é analista político. Governante é governante, se ganhar, claro, as eleições.

O marqueteiro tem de ter os pés no chão. Tem de estar atento para as pesquisas, tanto quantitativas, quanto, principalmente, as qualitativas. Tem de saber ler estas pesquisas. Tem de ter coragem para contestar uma pesquisa, porque às vezes ( vocês sabiam?) o cheiro, o feeling do marqueteiro é melhor do que a pesquisa.

O marqueteiro tem de ter coragem para dizer coisas da sua área, ou que envolvem o tom da campanha, para o candidato. Tem de ter coragem de contestar o candidato no que diz respeito ao bom andamento da campanha. Enfim, como já disse, marqueteiro é marqueteiro.

A coisa complica quando o marqueteiro começa a ditar regras sobre alianças, sobre coligações, sobre parcerias, e, depois sobre a forma de governar. Imagine você ligar para o Serra (José Serra) e dizer que ele deve fazer isto ou aquilo no que diz respeito à disputa pela Prefeitura de São Paulo. Ou ligar para o Lula (presidente Lula) e ser contra a aliança PT/PSDB em Belo Horizonte.

O marqueteiro tem de jogar uns búzios, fazer umas mandingas, pedir para os orixás, que o cara decida o que for melhor para a campanha. E tentar consertar, melhorar depois, a decisão, na campanha.

O marqueteiro tem de se preocupar em sentir o cheiro, tentar sentir para onde estão indo os humores populares e apresentar para o cliente. Eles decidem o que fazer em cima das informações e sentimentos. E isto não é pouco. Exige muito trabalho, pesquisa e sensibilidade.

Quando um candidato perguntar se deve fazer isto ou aquilo, você deve tentar reunir o maior número de informações possíveis, pesquisar, tentar reunir uma opinião a mais científica ou técnica possível e dar para ele algumas tonalidades de alternativas.

Se o candidato insistir ainda mais, então, você pode dar sua opinião. Não se omita. Você pesquisou e tem opinião. Mas, cantar de galo em tudo e dar opinião sobre o comportamento político do candidato não é bom, principalmente se ele não pediu.

O seu papel é ser o cara científico do grupo que rodeia o candidato. Ele já tem palpiteiros políticos demais. Não vire analista político e cague regra sobre tudo e sobre todos nesta área. Defenda com vigor suas idéias sobre o marketing e a propaganda do candidato. Sempre tendo como norte estas muitas coisas que tenho falado por aqui. É a minha opinião.

 

(*)  José Eduardo Cavalcanti de Mendonça, mais conhecido como Duda Mendonça, nasceu em Salvador, Bahia, em 10 de agosto de 1944 é um dos mais importantes publicitários brasileiros. Tornou-se notório no cenário nacional por comandar campanhas políticas vitoriosas em diversas eleições. Seu trabalho nas eleições presidenciais de 2002, quando da eleição de Luís Inácio Lula da Silva foi alvo de muitos elogios entre os profissionais da área. Também foi o responsável pela campanha de Paulo Maluf à Prefeitura de São Paulo em 1992, pela campanha de reeleição da ex-prefeita Marta Suplicy em 2004 e pelas campanhas de Ciro Gomes e de Cid Gomes no Ceará, respectivamente a deputado federal e a governador, em 2006, entre outras campanhas vitoriosas.

 
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