Atualizado em 07/02/2010 - 23h00

Wellington e Wilton, filhos de Reinério e o barco que não navegou

*Carlos Alberto dos Santos

Wellington, de saudosa memória, tinha a minha idade e Wilton era um pouco mais novo. Um era meu companheiro de farra, o outro era companheiro do meu irmão, Clécio. Mas, com a diferença de idade era muito pequena, frequentemente estávamos juntos nas costumeiras estripulias de antanho. Vou precisar de pelo menos três crônicas para falar deles, mas antes não posso deixar de dizer duas palavrinhas sobre o pai. Reinério era um artista com um maçarico na mão. Um ferreiro como poucos. A arte corria-lhe no sangue, filho que era de Neco Ferreiro. Dessa arte, Wellington herdou quase nada, mas Wilton tinha no DNA todos os códigos do pai.

Moravam na rua da frente, na ponta oposta àquela que Evaldo imortalizou nos seus livros e aqui no blogue. Essa foto (acima) de Antônio do Vale, com a sua amada Geraldinha em primeiro plano, parece que foi feita para o relato que farei a seguir. Excetuando a circunstância de ter sido obtida em um dia de maré extraordinariamente cheia, a foto representa exatamente o palco dos acontecimentos ocorridos nos anos 1960 com os irmãos Wellington e Wilton.

Vamos descrever o cenário. À esquerda tem, na esquina, o prédio que foi da Mossoró Comercial, gerenciada pelo “Seu” Adauto (informação que Miranda deu no seu comentário), pai de Gilton, Genildo, Suerda e Sônia (tinha outros filhos, cujos nomes não recordo). No andar superior desse prédio morava “Seu” João Jacinto, pai de Jacinto Filho, que foi meu colega de turma no Marista de Natal. Depois tem a casa de Reinério e a de Zé Cirilo, pai de Marta, que frequentemente escreve aqui nesse blogue. Não tinha me dado conta da perfeita simetria dessas duas casas; incrível, uma parece a reflexão da outra. Numa das outras casa morava Zé Barros, pai de Kléber, de saudosa memória. Ao fundo os prédios da Salmac e de F. Souto.

Wellington e Wilton resolveram construir um barco. Na verdade, acho que foi ideia de Wilton, que deve ter obrigado Wellington a ajudá-lo na espinhosa tarefa. Wilton, embora mais novo, tinha uma ascendência danada sobre o irmão. Era um barquinho pequenininho, não tinha mais do que um metro e meio de comprimento. Era também muito tosco, mais parecia um caixão triangular. Apesar de tudo isso, deve ter exigido muita engenhosidade dos meninos, ou pelo menos de Wilton. Cortar a madeira, pregar, calefatar, isso não era coisa para qualquer um que não fosse profissional.

Determinado dia foi anunciada a inauguração do barco. A maré estava cheia, não tanto quanto naquele dia da fotografia mostrada acima, mas as pequenas marolas faziam a água lamber a parte superior do cais. Não sei porque, diferente dos outros dias de maré cheia, naquele quase ninguém estava tomando banho na maré. Eu lembro que estava de roupa trocada. Ou seja, já tinha tomado meu banho de chuveiro daquele dia.

Ninguém ainda tinha visto o barco. Ele fora construído quase em segredo. Começamos rindo do formato triangular e tosco da obra náutica. Wellington, tímido como era, tinha a vergonha estampada no rosto. Wilton, voluntarioso que nem um rei, nos desafiava com o olhar, prenunciando a glória final e ordenando que Wellington tivesse mais cuidado, não deixasse que o barco caísse no chão. Cada um segurando um lado, colocaram o barco na água. Pegaram seus remos, sentaram-se e comecaram a remar. Não durou um minuto. O barco começou a afundar e dali não saiu.

A gargalhada, geral e estrondosa, deve ter ecoado para as bandas de Grossos, Barra, Pernabuquinho, Areias Alvas, quiçá Tibau!
É mentira Terta?

(*) Carlos Alberto dos Santos nasceu em 1947, em Areia Branca, RN. É Bacharel em Física pela PUC/RJ e doutor pela UFRGS. De 1974 a 1992 foi professor do Departamento de Física Teórica e Experimental da UFRN. Em 1992 transferiu-se para o Instituto de Física da UFRGS, onde aposentou-se em 2005. Atualmente é professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), onde coordena o Núcleo de Educação à Distância. Tem mais de 50 artigos científicos e mais de 70 crônicas e artigos de divulgação científica publicados em vários jornais nacionais e internacionais. Saiba mais acessando www.areiabranca.wordpress.com.

 

Atualizado em 26/01/2010 - 23h00

O romantismo das festas no final da década dos anos 80

*Glauco e Eliete Araújo

Trepidant´s, de Recife, uma das bandas preferidas dos areia-branquenses na época

Quando se fala das festas em Areia Branca na década dos anos 80, é falar do romantismo que existia nessa época, pois, se criava toda uma expectativa quando era anunciada uma festa com os saudosos grupos musicais da época que eram: Os Impossíveis (atual Grafithe), Grupo Alcano, de Recife; Scorpions, de Recife; Impacto Cinco, de Natal; Trepidantes, de Recife; Orquestra João de Orestes, Terríveis, ambos de Natal, e tantos outros grupos que fizeram memoráveis festas em Areia Branca. Ainda tinha as famosas feijoadas da famosíssima forrozeira Maria Marlene, do Ceará, no antigo CREDORN.

O que era mais genial dessas festas era que existiam três momentos que tanto os rapazes quanto as moças caprichavam. O primeiro momento era quando a gente dançava solto, no segundo momento vinha à vez de dançarmos agarradinhos ao som do verdadeiro forró, que apesar da nova geração não curtiu e não sei o porquê não quer ouvir o mais puro forró. E por último era chegado a hora mais esperada, que era o momento da paquera, quando a rapaziada caprichava na lábia. Uns tinham a sorte e conseguia namorar a garota pretendida, porém, outros não tinham tanta sorte assim e acabavam levando o famoso fora, mas, mesmo assim, a maioria não se abatia com o fora, e curtia a festa do mesmo jeito.

Tudo era diferente naquela época, apesar das festas serem pagas, mesmo assim, a gente curtia a festa, curtia aquele momento tão especial. Quantos casamentos saíram dessa época? Quantos romances começaram nos salões do Ivipanim Clube e do saudoso CREDORN?

Quem não se lembra dos bares dos saudosos: Eliseu, Paulo Bagaé, Zé Cabeção, Bar da Bruxa, Bar de Nilcinho. E o Bar de Elza no famoso sobe-e-desce, o bar de seu Lula que ficava embaixo do pé de algaroba lá na praia de Upanema? Pontos certos da juventude daquela época. Principalmente na hora do famoso intervalo das festas. Eliseu com seu famoso bom humor. Ainda tinha o bar do Chico do Coco, que ficava ao lado do mercadinho de Zé de Nelson, hoje supermercado. Realmente hoje tudo é muito diferente.

A juventude de hoje tem sua curtição voltada mais para outros sentidos, sentidos estes totalmente diferentes do que se fazia, tempos atrás.  Brigas naquele tempo? Existiam sim, mas era um fato isolado, não é como os dias de hoje que a maioria dos jovens não curte as festas, pelo contrário, as festas hoje se tornaram mais para ponto de encontro entre turmas para brigarem do que para a curtição. Infelizmente o que se comenta sempre após um final de festa são as brigas. Lamentável mesmo. O que resta é ficar com a doce lembrança de uma época em que o romantismo prevalecia.

O carnaval então! Como era bom brincar com alegria e muita harmonia no Ivipanim ou no CREDORN. Os blocos de salão faziam acontecer. A rivalidade existia, porém, era uma rivalidade sadia. Assistindo hoje as filmagens dos carnavais daquela época veremos que apesar de brincar dentro de um espaço tão pequeno que os salões tanto do Ivipanim quanto o do CREDORN, mesmo assim, se observa que não se vê uma briga sequer. O mais interessante disso tudo, é que era muita gente dentro do salão dividindo um espaço tão reduzido.

Tempos bons àqueles onde a magia do carnaval parecia que dominava a gente.  

*Glauco e Eliete Araújo, areia-branquenses residentes na cidade.

 

Atualizado em 17/01/2010 - 23h00

Os cataventos da minha infância

*Evaldo Oliveira

Catavento, ou moinho de vento, era muito usado para bombeamento da água para produção do sal

Na Areia Branca da minha meninice havia muitos cataventos, todos voltados para a captação de água ou para o seu bombeamento. Eram a marca registrada das antigas salinas - usados para bombeamento da água para produção do sal -, com o giro mágico de suas pás a nos inebriar, gerando um progresso que logo os descartariam de nossa paisagem.

O seu barulho característico, de prótese mecânica, rompia o silêncio das madrugadas quentes e úmidas, penetrando nos escaninhos da escuridão das várzeas salitradas, onde o perrexil teima em se fazer presente. O vento, para mover suas hélices, assobiava sua melodia fantasmagórica, e, na escuridão, o catavento parecia um monstro esquisito, com uma imensa cauda de pavão. E seu lamento triste e rouco ecoava nas gamboas e se entranhava nos manguezais, atrapalhando o namoro noturno dos caranguejos.

O catavento é uma máquina rudimentar que aproveita a energia eólica (dos ventos) para produzir um trabalho. Existentes na Europa desde o fim da Idade Média, os cataventos eram utilizados para a moagem de alguns cereais (daí serem chamados moinhos de vento). Com o progresso, foram abolidos. Porém estão ressurgindo com entusiasmo – no mundo inteiro - para um novo e importante serviço: geração de eletricidade. Na Europa moderna, a visão que se tem da fauna de cataventos à margem das estradas é impressionante e bela. O uso da energia eólica é uma das grandes promessas em termos de fontes alternativas de energia elétrica, pois sua geração não polui nem ocupa grandes extensões de terra, ao tempo em que reduz a utilização de derivados do petróleo. O Brasil ainda engatinha no uso desta tecnologia, já bastante conhecida e dominada, e apesar de seus vastos recursos eólicos.

Na minha infância, a visão dos cataventos, nas nossas investidas no rumo de Upanema, quando passávamos por Honorina, a flor da estrada, ou pelos caminhos de Zé Filgueira, enchia nossos corações de fantasias. Em visita a Toledo, Espanha, terra de Cervantes, ao imaginar Don Quixote travando insanas batalhas contra os moinhos de vento, ao lado do incansável e fiel escudeiro Sancho Pança, mais uma vez me emocionei ao lembrar de Areia Branca e seus quase esquecidos cataventos.

(*) Evaldo Alves de Oliveira, médico e escritor, é areia-branquense. evaldooliveira@brturbo.com.br

Atualizado em 11/01/2010 - 23h00

A bicicleta de Toinho Calazans

*Carlos Alberto dos Santos

“A gente chamava de bicicleta de corrida porque tinha o guidon virado para baixo e as rodas bem fininhas”

Aproveitando a deixa das últimas crônicas, nas quais mencionamos a família Calazans, e Evaldo chamou a atenção para o fato de haver poucas bicicletas em AB, lá pelos idos anos 1950, lembro de uma novidade daquela época: a bicicleta de corrida adquirida por Toinho Calazans, que já era o verdadeiro administrador do Armazém do seu pai.

A gente chamava de bicicleta de corrida porque tinha o guidon virado para baixo e as rodas bem fininhas. Eu, que aprendera a andar de bicicleta “roubada” de salineiros, lá do outro lado do rio, meia légua depois da barra, sofri o diabo com aqueles pneus finos da bicicleta de Toinho.

Acho que, além do dono, apenas Chico Novo e eu tínhamos o privilégio de andar naquela bicicleta. De vez em quando ele ficava brabo comigo, porque chegava um pouco depois de tempo combinado para a devolução. Não sei que propósitos Chico Novo tinha quando pedia a bicicleta. Da minha parte, não tenho vergonha em declarar: pedia para me exibir na frente das casas das namoradas ou daquelas com quem estava flertando. Coisa boa uma flertada na praça da igreja, hein?

Lembro que uma vez, a ciumenta mãe de uma namoradinha nos surpreendeu de mãos dadas, entre o Correio e o Grupo Escolar, esse que foi motivo da recente crônica de Evaldo. A menina ficou alguns dias de castigo. Para irritação da mãe eu passava várias vezes ao dia, chispando na bicicleta de Toinho Calazans. Santa bicicleta!

Sei que ficou nebulosa a história da “bicicleta roubada”. Era assim. Meus avós moravam num sítio, meia légua depois da Barra, para onde íamos nas férias. Na frente do sítio, meu tio tinha um armazém, que fornecia de tudo para os salineiros da região. Eles encostavam suas bicicletas, burros e cavalos, feito aqueles armazéns dos filmes de faroeste, e ficavam um bom tempo comprando seus mantimentos e tomando umas e outras. Nisso, a meninada que estava em férias no sítio aproveitava e “roubava” a bicicleta, e na falta desta, o animal que não desembestasse.

Claro, de vez em quando um desprevenido pegava um burro-mulo mais tinhoso e era um Deus-nos-acuda. Geralmente só tinha duas alternativas: agarrar-se no pescoço do bicho até ele parar, ou pular, correndo o risco de quebrar pernas e braços.

(*) Carlos Alberto dos Santos nasceu em 1947, em Areia Branca, RN. É Bacharel em Física pela PUC/RJ e doutor pela UFRGS. De 1974 a 1992 foi professor do Departamento de Física Teórica e Experimental da UFRN. Em 1992 transferiu-se para o Instituto de Física da UFRGS, onde aposentou-se em 2005. Atualmente é professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), onde coordena o Núcleo de Educação à Distância. Tem mais de 50 artigos científicos e mais de 70 crônicas e artigos de divulgação científica publicados em vários jornais nacionais e internacionais. Saiba mais acessando www.areiabranca.wordpress.com

Atualizado em 01/01/2010 - 23h00

Fim de Ano – começo dos recomeços

*Maria Antonia Bezerra da Silva

Sempre é tempo de recomeçar. Renovar o nosso compromisso com a vida e alcançar a felicidade.

Rebuscando folhas do passado, repassando a limpo antigas opiniões, velhas opiniões, sonhando velhos sonhos A gente aprende lições que durante anos, não fomos capazes de aprender. A peleja da vida, os momentos tristes, os passos em falso, as ilusões, as frustrações, até os breves momentos de solidão são totalmente esquecidos quando uma lição verdadeira e necessária enfim acontece na nossa vida.

Caminhos de pedras, flores cheias de espinhos, nuvens negras agora não precisam povoar a vida de quem aprende que “viver” não é simplesmente viver da espera de um futuro que nunca chega, de alegrias passageiras, de sorrisos supérfluos...

Somos corpo e alma, precisamos de coisas que o dinheiro não compra, que a aparência não preenche, que outro ser humano não completa. Somos filhos de Deus, e aprendemos na alegria ou na dor que existe um “ser” que nos completa, que nos transforma, nos melhora e nos molda, a cada dia, a cada prece, a cada esperança na vida, no amor e no poder do grande amigo que jamais nos abandona.

Então, nessa mensagem de fim de ano, abro meu coração para falar dos votos de um novo começo ou recomeço para todas as coisas que já estão dando certo. Agora, refletimos juntos sobre aquilo que estamos adiando, seja uma palavra amiga, um abraço, um carinho, um olhar atento a um irmão que passa ao nosso lado. Uma oração que pensamos em fazer, aí bate o sono, o cansaço, e adiamos.

Às vezes, pensamos em realizar aquele sonho que por tanto tempo estivera guardado em segredo, mas por um motivo qualquer deixamos para depois. Bater um papo com um amigo, fazer uma caminhada, olhar o sol de fim de tarde, reconquistar uma amizade perdida, rever o mar, escrever um verso, acolher quem precisa apenas de nossa atenção, plantar uma sementinha, pedir perdão a alguém, que sem perceber, magoamos.

São tantas pequenas coisas que poderíamos recomeçar, restituir, reviver, reconsiderar, e reaprender a sermos puros tal qual fomos um dia, na infância. Com passos de bebê, cada gesto, uma conquista, cada passo, um degrau, seríamos assim novamente recarregados dessa força misteriosa que nos impulsiona a sermos cada vez melhores, a querer ultrapassar o estágio de fraqueza humana, de egoísmo, de individualismo, de arrogância, de superar os outros, o de saber mais, o da vaidade, de correr mais que o tempo, de atropelar os sentimentos alheios para mascarar nossa vulnerabilidade.

Minha amiga, meu amigo, sejamos assim, simples, recomeçando tudo outra vez, sem medo de cair na mesmice de estar no mesmo lugar por tanto tempo. Que sejamos assim, arraigado às idéias que são nossos pilares, aqueles que são as nossas raízes, nossas origens.

Os anos idos não importam mais, nosso espírito é que precisa ser jovem para que o nosso sorriso nunca desapareça, a alegria infantil não se perca, as lembranças benfazejas não desapareçam do coração. Para que esconder o desejo de correr pela praia, afofar os pés na areia úmida e esquecer pensamentos incômodos.

Para que amarrar a “cara” e negar um “oi”, um “bom dia” para alguém que você conhece apenas de vista? Existe coisa melhor do que acordar cedo, observar a vida, cumprimentar um estranho, sentir que esse é o momento que não se repetirá mais em sua vida, por que não fazê-lo com entusiasmo?

Que tal, buscar fazer um amigo a cada oportunidade, quem sabe assim possamos superar o número de inimigos naturais que acumulamos em nosso dia a dia? E enfim, pensamos em como é bom termos amigos, contarmos com amigos quando precisamos, que tal sermos esses amigos?

Porque amigos são aqueles seres que enchem nossa vida de sentido, que nos ouvem, nos fazem sorrir com bobagens, que preenchem nossos dias e nos fazem acreditar em sonhos perdidos. E quando esses amigos não conseguem preencher aquele vazio estranho, aquela sensação vazia, de “confusão mental”, aí sim, aquele amigo invisível aos olhos, mas de dentro do coração, nos preenche através da fé, que nos compreende, nos ouve, nos perdoa, nos ama acima de todos os defeitos e nos enchem de qualidade.

O ano de 2009 chega ao seu final e esse momento de reflexão nos proporciona mais uma chance do recomeço, do perdão, da mudança de opinião, das lembranças, de quebrar as “amarras” dos “prés”, de conceitos, de juízos, de tudo que nos forçam a viver uma vida muito mecanizada.

Que tal olharmos em nossa volta, e como num passe de mágica, o olhar transforma-se numa “ótica poética”, onde só as coisas belas possam ser admiradas. Onde a vida seja menos complicada, mais intensa, mais feliz. Fim de ano, mas recomeço para novas aventuras. A doce e bela aventura de viver.

Sejamos felizes, assim, simplesmente dessa forma única de sermos meros seres humanos, que buscamos incessantemente sermos melhores, mais felizes, mais solidários, criativos, amigos e abertos ao novo. Que venha um 2010 repleto de tudo o que mais desejamos.

(*) Maria Antonia Bezerra da Silva, areia-branquense, atualmente reside em Natal. Autora dos livros “Pétalas de Sonhos”,  2003;  “Ler, Pensar e Construir”,  2005; e “Poemas na Areia” – 2009.

Atualizado em 26/12/09 - 23h00

Por que não somos sempre assim?

*Alcindo de Souza

Boas Festas! Feliz Natal! Próspero Ano Novo!
Estas são as expressões mais utilizadas neste mês de Dezembro. As razões para a multiplicação de seu uso, são óbvias. Representam o desejo que se tem de que a pessoa com quem se fala ou com quem se comunica ainda que à distância,  tenha dias de alegrias e de felicidade.  São palavras doces,  carinhosas e amenas que tem o poder de criar um clima interpessoal dos mais agradáveis além de traduzir respeito e amor pelo próximo.

No período Natalino e de Ano Novo, ocorre um natural fenômeno de sociabilidade entre as pessoas, verificando-se em alguns casos,  hábitos claramente opostos aos anteriores.  Seres reconhecidamente anti-sociais e de difícil relacionamento de repente e até sem perceber, passam a praticar a boa vizinhança e a expressar o lado sociável até então contido.

O que faz o indivíduo de repente passar a respeitar o próximo, tratá-lo com civilidade e gentilezas nunca antes postas em prática, cumprimentar com  um sorriso no rosto, e até desejar dias melhores para seus interlocutores? Medo de Papai Noel? Receio de que Deus somente neste período o esteja observando e avaliando-o?
Entre as  possíveis causas, algumas apontariam para a competição entre as pessoas para justificar a frieza, indiferença e até mesmo falta de educação de significativa parcela da população no dia-a-dia.

Por que limitar esse comportamento elevado ao festivo período de Natal e Ano Novo? A vida é contínua e precisa permanentemente alimentar-se de boas energias, de positivismo e de motivação.  Insere-se naturalmente neste contexto, a conhecida lei da ação e reação. Colhemos o que plantamos, sabemos todos. É bíblico. Diariamente, temos o livre arbítrio de determinar como será o dia que queremos ter. Se nebuloso, pesado, com mau humor e de tempestades afetivas. Ou, de muita luz,  sorriso aberto e predisposição a ser feliz em mais um dia. Até porque, como também sabemos, a felicidade não é um destino em si, mas uma viagem que pode sim ser longa e duradoura.

O desafio, modestamente sugerido, é de que possamos  nos dias atuais refletir sobre a real possibilidade de expandirmos se não eternizarmos esse período de inquestionável  generosidade e de felicidade coletiva. Por que não acreditar que temos a capacidade de “contaminar” as pessoas com as quais nos relacionamos com o espírito pacificador e do querer bem? Por que não trabalharmos nosso lado humano no sentido de melhor compreendermos nosso semelhante e assim ajudá-lo a  ver o mundo com outros olhos?

Sim, porque a felicidade partilhada é a verdadeira forma de ser feliz. Há até quem diga que “é impossível ser feliz sozinho”, teoria na qual acredito.

Que neste Natal, Ano Novo e por todo 2010 possamos ser agentes multiplicadores  de sentimentos como  harmonia, solidariedade, carinho, amor e respeito ao próximo.
Feliz Natal a todos!

(*) Alcindo de Souza 
Natal, Dezembro de 2009
Visitem o blog: www.alcindodesouza.blogspot.com

 

Atualizado em 20/12/09 - 23h00

Jogo de botão ou futebol de mesa?

*Carlos Alberto dos Santos

O Othon (Othon Souza) é meia geração anterior à minha. Claro não existe essa coisa de meia geração, mas como ele é aproximadamente 10 anos mais novo, inventei essa história de meia geração. O curioso é que em menos de 10 anos os hábitos mudaram tanto em Areia Branca. Nos anos 50 os adolescentes brincavam como na música de Ataulfo Alves, de jogos de botão pela calçada.

Nessa época eu era criança, morava na Silva Jardim. Na outra esquina ficava a casa de Antônio Luna, que tinha uma calçada bem lisa. Ali os meninos mais velhos, imagino que com 13-15 anos, jogavam botão com tampas de latas de graxa de sapato. Se bem me lembro era assim mesmo. Os botões eram impulsionados com um peteleco (dedo médio apoiado pelo polegar). Não lembro do que era feito a bola, mas sei que tinha o formato esférico. Para chutar a gol, evitando que o botão espalhe o resto, colocava-se os dedos médio e indicador na forma de forquilha um pouco à frente da bola. O botão batia na bola e parava nos dedos.

No final dos anos 50 e início dos 60 a minha geração já não jogava nas calçadas, e não usávamos as tampas das latinhas de graxa de sapato como botão. Usávamos as tampas de bilhantina, geralmente glostora, e botões grandes, geralmente de vestidos. Também fazíamos botões com quenga de côco e com chifre bovino. Isso era feito manualmente, inicialmente desgastando o material no cimento das calçadas, que funcionava como um esmeril.

Depois o acabamento era feito com lixa. É claro que alguns meninos eram mais habilidosos do que outros naquela arte. Eu jamais consegui fazer um botão que prestasse. O jogo era realizado sobre uma mesa, geralmente a mesma onde as refeições eram feitas. Ou seja numa mesa grande.

Lembro bem, e Antônio José, Marques Neto, Elsinho, Ronald Góis, Chico Zé de Seu Georgino Queiroz, e acho que também Duarte haverão de lembrar as disputadíssimas partidas na casa de Manoel Lúcio, pai de Elsinho e Marques Neto, ali na praça do Tirol. Usávamos pentes para impulsionar os botões. Pelo que me lembro, ainda não usávamos palhetas. Continuo sem lembrar como era a bolinha. Não sei se era igual àquelas que os meninos jogavam nas calçadas.

Um dia, inventei de usar uma tampa de vidro de canela. Todo mundo morreu de rir com aquele botão metálico, cheio de furos. Caí na besteira de dar nome ao jogador: “picadinho”. Que idiotice a minha. Acho que o Marques Neto, que era um gozador de primeira, me deu o apelido de picadinho, que depois alguns também chamavam de picado. Sempre detestei, mas aguentei no tranco, para não dar a impressão que estava zangado. Quanto mais raiva se tem de um apelido, mais ele pega.

Quando, em 1961 fui estudar em Natal (Marista no ginasial e Atheneu no científico), conheci botões diferentes e o uso da palheta. Os botões mais comuns eram feitos com fichas de ônibus, que eram facilmente derretidas numa fôrma metálica e depois fazíamos o acabamento na calçada e na lixa. Nessa época começamos a usar botões feitos com vidro de janela de avião, que chamávamos de “vidro inquebrável”. A denominação era justificada. Os bichos eram duros na queda. Claro que depois de muito uso, a gente terminava vendo que um ou outro quebrava, dependendo da forma como caiam no chão. Mas, antes que eu verificasse essa “fraqueza” dos botões, chegaram minhas primeiras férias de meio de ano e eu desembarquei em Areia Branca com a novidade: um time inteirinho de vidro inquebrável. Minha primeira exibição foi na casa de Chico Paula, com seus filhos Laurinho, Titico (in memoriam), Carlinhos e Mário (in memoriam), amigos inesquecíveis. Em AB continuávamos jogando nas mesas, de modo que os botões viviam caindo no chão. Ora, aqueles botões de vidro iam se quebrar. Eles não acreditaram que os botões não se quebravam. Fiz uma demonstração rápida. Dei uma palhetada no botão para ele cair no chão. Ficaram boquiabertos. O botão estava ali no chão, inteirinho. Eu poderia ter parado ali e me consagrado. Mas o idiota aqui resolveu fazer nova exibição. Peguei um botão e joguei com força no chão. Sabe o que aconteceu? Preciso dizer que o diabo do botão se espatifou?

Depois eu conto os negócios que eu fazia em Natal, com botões da Vila naval. Essa não é bem uma história de Areia Branca, mas vai chegar em Zé do Vale e em Othon. Quem viver verá.

 

(*) Carlos Alberto dos Santos nasceu em 1947, em Areia Branca, RN. É Bacharel em Física pela PUC/RJ e doutor pela UFRGS. De 1974 a 1992 foi professor do Departamento de Física Teórica e Experimental da UFRN. Em 1992 transferiu-se para o Instituto de Física da UFRGS, onde aposentou-se em 2005. Atualmente é professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), onde coordena o Núcleo de Educação à Distância. Tem mais de 50 artigos científicos e mais de 70 crônicas e artigos de divulgação científica publicados em vários jornais nacionais e internacionais. Saiba mais acessando www.areiabranca.wordpress.com.  

Atualizado em 13/12/09 - 23h00

Farol de Upanema, pequeno e belo

*Evaldo Alves de Oliveira

Farol de Upanema, com um charme e adorado por todos

Um farol é, geralmente, composto de uma torre, e no alto um aparelho óptico, uma fonte de luz e espelhos ou refletores. A luz pode ser fixa, ou em relâmpagos, com tempos distintos de luminosidade e obscuridade, e com uma potência que varia em função do sistema óptico e da distância do observador. Basicamente é desse modo que se descreve um farol.

No Rio Grande do Norte são citados sete faróis, a saber: o da Ponta do Mel, da Ponta Caiçara, da Ponta do Calcanhar, de Mãe Luíza, de Ponta da Gameleira, do Cabo de São Roque e do Cabo de Bacopari. Não se fala no Farol de Upanema, um dos equipamentos mais queridos pela população de Areia Branca.

O esquecimento seria pelo fato de ser um dos menores? Desde criança aprendemos a gostar do Farol de Upanema, que, serenamente, sinaliza para as grandes embarcações, para os barcos pesqueiros, para os barcos de fora, nas noites de lua cheia, nas noites escuras, onde as estrelas tentam confundir os navegantes, ou nas noites de tempestade, quando os mares se tornam bravios, furiosos, no limite do terror. Também nas noites de calmaria, quando os marinheiros, após alguns dias longe de casa, têm a sua estrela-guia a lhes indicar o seguro caminho de volta.

No norte da Europa, os faróis tinham tanta importância que piratas simulavam falsos faróis com o objetivo de atrair os navios para áreas perigosas – o correspondente atual às falsas blitzes que os bandidos aprontam no trânsito, no Rio de Janeiro. Após o seu afundamento, os barcos tinham sua carga – os salvados – recuperada e saqueada pelos bandidos.

No ano de 180 a.C. foi erigido o Farol de Alexandria, próximo à ilha grega de Faros, de onde se originou o termo farol. No século XIV o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do mundo antigo, foi destruída por um terremoto. Possuía cerca de 130 metros de altura, e tinha no topo uma estátua de Poseidon, divindade da mitologia grega que controlava os mares.

O nosso Farol de Upanema é pequeno, mas bonito, com um charme de cabrito novo, e adorado por todos. Compõe, junto com a Igreja Matriz, os dois símbolos maiores da nossa cidade.

(*) Evaldo Alves de Oliveira, médico e escritor, é areia-branquense. evaldooliveira@brturbo.com.br

Atualizado em 06/12/09 - 23h00

15 de agosto, uma cidade em festa

*Evaldo Alves de Oliveira

Homenagem à padroeira dos marítimos é um dos momentos marcantes do calendário religioso de Areia Branca

Terminadas as férias de julho, todas as atenções voltavam-se para a grande festa da cidade. Os parentes que moravam fora anunciavam a sua presença, e as pessoas das redondezas se movimentavam para garantir um lugar nas festividades. Existia uma inquietude gostosa no ar. Todos queriam participar. Era a festa de Nossa Senhora dos Navegantes, em Areia Branca, década de 1950.

Os preparativos eram iniciados com antecedência; as novenas animavam as noites na pracinha atrás da igreja, e, nas casas, o intenso movimento nas cozinhas – é bom lembrar que naquela época pouquíssimas casas possuíam geladeira (a querosene) – e nos dormitórios; naquelas, para o preparo das guloseimas; nestes, a preocupação com as redes extras a serem postas.

A igreja lotava todas as noites, e cadeiras extras eram providenciadas. Havia até disputa dos adolescentes para saber quem conduziria o turíbulo, com sua aura cheirosa e enfumaçada. Padre Ismar e sua equipe trabalhavam de forma frenética. Destaque para Chico de Boquinha, sempre envolvido nos movimentos socioculturais e religiosos.

Dezenas de barracas surgiam do nada, mas uma delas se destacava, até por ser a mais bonita e animada: a barraca de Zacarias, com as músicas em alto volume e suas roletas coloridas, girando, e com elas as emoções das crianças, querendo ser gente grande. Os adolescentes eram maioria, além de adultos de muitos agostos. Em torno dessa barraca acontecia de tudo: paquera, empurra-empurra, brincadeiras, venda de bilhetes para as candidatas a rainha da festa, e era ali que saía o resultado do concurso, com o nome da vencedora. As candidatas pertenciam às melhores famílias da cidade.

Quase sempre, nesses períodos festivos, aparecia um Zorro magricela, que surgia do Beco da Galinha Morta empunhando uma espada. Rodopiava, erguia a espada e o chicote, dava uns gritos e desaparecia na escuridão do beco. E virava o comentário da semana. E o mistério: quem seria aquele Zorro?

No alto da prefeitura, a sonora anunciava os filmes do dia e destacava alguns pontos da programação da festa. Os rapazes ficavam em torno da pracinha, em grupos, falando de coisas sérias; as moças davam a volta no sentido anti-horário, em tom de provocação. Grupinhos de rapazes resolviam dar volta na pracinha, no sentido contrário ao das moças. Era o ritual da paquera. Nos cabelos, destaque para a brilhantina Glostora; no bolso, um pente e um espelhinho para ocasionais reparos na trunfa que se exibia no alto da cabeça, estilo pica-pau, azarando os brotinhos. O pega-rapaz fazia parte do look. Era a época de as mulheres frisarem os cabelos.

Por essa época os meninos-quase-rapazes aproveitavam para deixar de usar calças curtas, com suspensórios, até então usados nas bancas – caixas de madeira semelhantes à que os engraxates ainda usam – de jogos, valendo castanha de caju, nas ruas e calçadas, durante as férias recém-findas. Ah, e passar a usar cueca. Havia uma relação direta entre o uso da calça comprida e o direito ao uso da cueca. O aluguel de bicicletas, defronte à prefeitura, era intensificado. Havia fila de espera. Todos queriam se mostrar, aparecer.

Algumas pessoas de lugarejos próximos faziam algo incrível, porém verdadeiro. Colocavam uma capa dourada em um ou dois dentes da frente, feita de lança-perfume Rodoro bem polida, imitando ouro, que era retirada após os festejos. E haja sorriso faiscante. Não sei se esse serviço era feito por dentistas ou por protéticos. Sei que Dr. Vicente, o nosso superelegante dentista, era visceralmente contrário a tal prática.

Nos acanhados parques de diversões, as músicas bregas invadiam a noite – sempre depois da novena -, com as tradicionais ofertas musicais – Alô, alô alguém de óculos escuros que se encontra em frente ao carrossel de cavalinhos! Outro alguém lhe oferece, apaixonadamente, este postal sonoro, com um colar de beijos! E haja Waldick Soriano, Nelson Gonçalves ou Vicente Celestino a espocar nas noites agitadas – e inesquecíveis – de nossa meninice.

E no dia 15 era aquele mundo de pessoas de todos os recantos do estado, e a molecada a rodar os seus rói-róis, produzindo um barulho chato, hoje saudoso. A procissão marítima era o ponto culminante, e marcava o encerramento da festa.

No dia 16 já estavam, todos, pensando no dia 15 de agosto do ano seguinte.

(*) Evaldo Alves de Oliveira, natural de Areia Branca. Médico e escritor, reside em Brasília (DF).
 

Atualizado em 30/11/09 - 23h00

Relembrando Tico da Costa

*Vicente Serejo

O inesquecível Tico da Costa, o maior nome da música potiguar

Destino de cronista de província, Senhor Redator, é esse mesmo, de anotador das alegrias e tristezas. Nem tinha guardado a saudade de Zeca - aquela que fui acordar outro dia, como quem abre uma gaveta antiga - e perdi Tico da Costa que conheci há uns bons anos na casa de Diógenes da Cunha Lima. Ele que um dia, sem avisar, chegou numa manhã, com Deífilo Gurgel e o violão, e cantou cercado desses livros velhos e silenciosos.

Alguns dias antes de viajar para a Itália - onde lançou seu cd mais novo com o belo título de “Mar”, e lá sentiu a primeira dor, aquela que roubaria sua vida - Tico esteve outra vez na biblioteca a convite de um amigo da casa, Sílvio Caldas. Chegou sem violão, mas o silêncio feriu seus ouvidos e ele foi bater na casa de sua mãe - mais perto que a sua. E de lá já voltou com um violão que não era o seu, mas tocava. E cantou as canções do novo disco.

De repente, começou a cantar as coisas da infância. Ora, se já havia um mar antigo a unir Areia Branca e Macau, naquela noite descobrimos que tínhamos nos nossos ouvidos o mesmo tinido seco e melancólico do calafate. Ele estava com sua mulher, Sara Fracchia, neta do grande Jackson de Figueiredo, autor de um ensaio consagrador sobre a poesia de Auta de Souza e publicado pelo Centro Dom Vital, em 1924, na Coleção Eduardo Prado.

Riso de menino de Areia Branca que sabia cantar, nome a nome, as ruas e os becos de sua geografia da infância, Tico ficou surpreso quando cantou o calafate e ouviu meus guardados sobre essa palavra antiga. Mais ainda quando mostrei a ele uma velha enxó, já tão gasta pelo uso. Então viu o quanto eram também minhas aquelas lascas de madeira que chamavam \'cavacos\', e que saltavam dos golpes da enxó nas mãos dos carpinteiros navais.

O adeus de Tico ficou sobre o azul da capa do seu novo disco, em letras negras e fortes, cheirando a vinho. Ele aceitou, quando voltasse da Itália, onde lançaria o seu “Mar”, fazer uma noite de serenata nos jardins da biblioteca. Tudo sob o olhar severo do pianista Sílvio Caldas, nosso amigo comum e que já faz parte do acervo da casa. E escreveu assim: “/Ao Vicente Serejo que sabe do mar e da enxó do calafate, um abraço de Tico da Costa\”.

De repente, perdemos o menino. Seu riso, sua alegria, a musicalidade encantadora. Na primeira visita, com Deífilo, tentei convencê-lo a uma retomada das nossas modinhas. Queria vê-lo também modinheiro com sua voz melodiosa. Seria um novo menestrel a cantar Othoniel Menezes, Segundo Wanderley, Heronides França. Tanto que lhe dei o livro de Cláudio Galvão. E nem notei que Tico estava de partida para cantar noutro jardim...

(*) Vicente Serejo. Cronista, jornalista, colunista do Jornal de Hoje, Natal.

 

Atualizado em 24/11/09 - 23h00

Ode a Luis Lourinho

*Othon Souza

Parecida com Areia Branca em tudo, em Macau a sinuca também foi o ópio de uma geração

Luis Lourinho foi o maior jogador na “Sinuca do Sr. Chico Amaro”, na década de 70. Não tinha adversários; tinha sim, vários admiradores. Quando eu lá adentrava, corria os olhos pra ver se o Luis se encontrava. Era show grátis do dia!

Ele era como os atores de Hollywood vistos no Cine Miramar e São Raimundo, respectivamente. Tinha o rosto de galã, porte invejável, forte, pele branca, bronzeada pelo sol. Era também extremamente elegante no vestir, andar e nos gestos. Manejava o taco com maestria. Passava o giz azul na ponta do mesmo e o branco ao longo dele. Vê-lo assim, era como um enamorado acariciando sua amada, devido a suavidade nos movimentos.

Interessante era as partidas dele contra o Nilton Mariano, filho do meu tio Luis Mariano. As vezes corria uma aposta em dinheiro, pra quebrar a rotina, como também um cachê extra. Afinal não ia desperdiçar seu maravilhoso talento, que merecidamente se devia cobrar ingresso para vê-lo jogar.

Meu primo? Nem preciso dizer que, quando muito, ganhava uma partida, entre dez pró-Lourinho. Como que um gol de honra, numa partida de futebol perdida. O Loiro relaxava e se deixava ganhar.

Vale ressaltar que ambos tinham um código secreto. Chegando alguém “de fora”, desconhecedor da realidade, mostrando-se muito interessado em participar das apostas? Luis misteriosamente jogava mal e até perdia. O desavisado logo apostava no taco de Nilton. Coitado do forasteiro…Lourinho mostrava toda sua força máxima ! Como Sansão, Maciste ou Hércules. Dava o seu espetáculo particular, arrasando meu primo e não deixando nenhuma dúvida de quem era o rei do estabelecimento. A platéia assistia calada como num Tribunal do Jurí. Todos nós tinhamos vontade de aplaudir e nos contentávamos interiormente. Regras do jogo.

Houve um torneio aberto naquela época. Pena que não vieram os “Rui Chapéu” da Região Sudeste. Iam todos sofrer vergonha. Luis “cantava a bola da vez”: “essa bola vai bater ali na tabela, vai resvalar pra cá e vai cair na caçapa”. Bingo ! Não dava outra. Luis Lourinho, campeão invicto.

(*) Othon Souza, filho do saudoso prático Zé Antonio e de ”Belezinha”, nasceu em Natal, mas tem profundos laços com Areia Branca, inclusive familiares. Engenheiro Agrônomo pós-graduado Mestre em Agronomia. Atualmente reside em Rio Branco, capital do Acre.

 

Atualizado em 15/11/09 - 23h00

Valmira Pereira da Silva

*Othon Souza


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Valmira Pereira da Silva, famosa parteira da cidade

Em 1985, eu era pesquisador da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), em Rio Branco-AC.

Meu campo de trabalho foi em um Projeto de Assentamento do INCRA, cuja sede se localizava no Km 61 da BR 364 (AC – RO).
Fiz logo amizade com todos, e vivi em harmonia com aquela comunidade rural.
Inúmeros foram os convites para ser padrinho de crianças, professor da escola local, palestrante, etc.

Só não rezei missa, mas fiz de tudo para agradar a todos. Espero, em breve, escrever um livro sobre essas inúmeras histórias.

Um dos relatos dos quais me lembro foi o parto de uma das jovens produtoras rurais. Foi um momento mágico, sublime, e inesquecível.

Lembrei-me da minha infância em Areia Branca, quando o médico clínico geral, Dr. “faz-tudo”, Dr. Chico Costa, realizava partos na Maternidade Sara Kubistckeck, com o auxílio indispensável da sua assistente, Sra. Valmira Pereira da Silva, famosa parteira da cidade.

Em Areia Branca, ouvia inúmeros casos sobre Dr. Chico não se encontrar na cidade, e, na sua ausência, o parto ter sido realizado pela competentíssima parteira, Sra. Valmira.
O pessoal da cidade dizia:
- Dona Valmira não é santa não, mas obra milagres!

Várias foram as crianças que foram aparadas por suas santas mãos.
Ela nunca se negou a ajudar alguém em trabalho de parto. Prontamente, naquela sua paciência e experiência de vida profissional, acalmava as famílias envolvidas, as parturientes aflitas, principalmente as mães de primeira viajem.

Tomei conhecimento que ela recentemente comemorou seu natalício de número 90 (noventa), junto aos seus muitos familiares, e aos seus milhares de amigos.

Dona Valmira, que a Sra. goze de merecida boa saúde e disposição, na cidade que nasceu, junto aos familiares, amigos, admiradores,  e continue fazendo os milagres, se necessários forem.

(*) Othon Souza, filho do saudoso prático Zé Antonio e de ”Belezinha”, nasceu em Natal, mas tem profundos laços com Areia Branca, inclusive familiares. Engenheiro Agrônomo pós-graduado Mestre em Agronomia. Atualmente reside em Rio Branco, capital do Acre.

 

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